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Primeiro cachorro

Luis Fernando Verissimo

Estes textos têm de ser escritos com uma certa antecedência, o que prejudica a sua atualidade. Me arrisco a ver meus palpites desmoralizados pelos fatos antes da sua publicação ou acabar como um profeta do já acontecido. Não sei, por exemplo, se quando isto sair o Barack Obama já terá feito as duas escolhas mais importantes para o seu futuro Governo, que são a do seu secretário do Tesouro e a do cachorro para as suas filhas.

Quando escrevo, um dos nomes cogitados para o Tesouro é o do lamentável Lawrence Summers, que um dia propôs que indústrias poluidoras fossem instaladas em países subdesenvolvidos porque a mão-de-obra era mais barata e portanto o custo social seria menor. Depois, como presidente de Harvard, teve de pedir desculpa às mulheres por ter sugerido que certas profissões e atividades estavam além da sua capacidade intelectual. Só ele ter pensado em Summers já foi a primeira decepção com o Barack.

A escolha do primeiro cachorro deve ser mais fácil. Para começar, ele só precisará ser adorável, não precisará entender de economia e finanças. A não ser que seja um cachorro especialíssimo, nem falará, quanto mais dirá bobagens para se arrepender depois. Na verdade, o único perigo que haverá será o cachorro fazer no gramado da Casa Branca, na frente das câmaras, o que o Summers de vez em quando faz figurativamente falando, mas no seu caso sem qualquer repercussão no mercado.

O posto de primeiro cachorro será o mais invejado em Washington. Ele terá chegado à Casa Branca sem a necessidade de enfrentar primárias, debates e uma longa campanha com discussões sobre o seu passado, as suas ideias e a sua competência para o cargo. Ao contrário do Barack, nem a sua raça será discutida. Pode ser um fator na sua escolha, mas se ele for um vira-lata sem raça alguma será ainda mais simpático. E ele se transformará numa celebridade instantânea. Durante no mínimo quatro anos será o animal mais famoso do mundo. Terá alimentação assegurada, atendimento médico dia e noite - tudo isto sem ter de se preocupar com a crise, com a oposição republicana ou com os destinos da Humanidade.

É verdade que, baseados no comportamento de antigos ocupantes da Casa Branca - não, não o Clinton, o cachorro dos Roosevelt, Fala, e o dos Bush, Barney - talvez tenham que castrá-lo. Mas será um pequeno preço a pagar pela fama e pelos anos de mordomias.

Franklin Roosevelt dizia que o seu "terrier" escocês Fala era o seu melhor amigo e confidente. Fala viajava com Roosevelt, dormia no seu quarto e participava de todas as reuniões da presidência. Uma vez inventaram que Roosevelt esquecera Fala numa ilha do Pacífico, depois de uma conferência, e mandara um destroyer buscá-lo, ao custo de milhões de dólares dos contribuintes. Num discurso, Roosevelt disse que não se importava com os ataques a ele e à sua família, mas que Fala ficara indignado com a acusação e não era mais o mesmo cachorro. A oposição não tinha ideia do mal que fizera à Administração do país. Barney também era um "terrier" escocês que acompanhava Bush por toda parte, mas não deve ser verdade que também era o seu principal conselheiro.

MOMENTO

(Da série "Poesia numa hora destas?!")

Arpoador.
Pôr-do-sol.
Teus olhos verdes.
Dois chopes,
leve brisa
e maresia.
...Covardia.


Domingo, 16 de novembro de 2008.



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